• Ensaio sobre a cegueira

    Lembro-me do dia em que me apaixonei por Saramago. Bom, talvez não o dia, mas o período. Foi na minha lua-de-mel e a obra o “Ensaio sobre a cegueira”. Livro estranho para levar numa viagem de núpcias, poderão achar. Mas Saramago era um daqueles autores que eu ia adiando, adiando, até ter “tempo”. E aqui tempo não é o físico, mas o mental. Pareceu-me que esta viagem, num período de extrema felicidade, percorrendo a Itália do “dolce fare niente”, seria o teste de fogo à minha capacidade de concentração na obra aclamada.

    É que a primeira vez que peguei num Saramago foi no liceu. “O Memorial do Convento”. Não era leitura obrigatória, mas fazia parte da bibliografia opcional e eu, como menina da 1ª fila, fazia questão de ler as obras opcionais. Só que não consegui. Lia e lia e ao fim de três parágrafos, nada. Não tinha assimilado uma palavra. Voltava atrás, relia devagar, mas a mente teimava em desconcentrar-se e a confusão instalava-se. Até que um dia, chegada ao quinto capítulo, após penosas noites de insistência, desisti.

    Nesse momento comecei a “detestar” Saramago. Porque foi o primeiro autor que me fez sentir realmente burra. Hoje acho que ele me pôs no lugar. Eu tinha 16 ou 17 anos, as notas diziam que era a melhor aluna de Português, achava que lia tudo e que escrevia belíssimamente. E toma. Põe-te no teu lugar. Ainda te falta muito traquejo para dominares a língua e ainda mais para dominares as palavras.

    Mais tarde, na Faculdade, uma das obras de leitura obrigatória era o livro de crónicas de Saramago (decerto porque os professores tomavam como dado adquirido que todos os presentes já tinham lido um dos livros do autor). Até gostei. Ou melhor, adorei. Mas não podia dizê-lo. Eu que já tinha contado a toda a gente a minha luta com o Memorial.

    Até que um dia tive de render-me à evidência. O senhor ganhou o Prémio Nobel! Está traduzido em dezenas de línguas, é aclamado em inúmeros países, escreve crónicas divinamente, como é que é possível, aos 28 anos, ainda não ter lido nem uma das suas obras?

    Assim, desfazendo-me dos últimos laivos de teimosia juvenil, aproximei-me humildemente da obra completa, que figura na belíssima biblioteca da minha mãe, e peguei no” Ensaio sobre a cegueira”, um dos livros mais brilhantes que tive a oportunidade de ler até hoje.

    No final, senti que fez todo o sentido levar aquele livro na lua-de-mel. A viagem que marcou um novo ciclo da minha vida, fica assim também a marcar o início da minha idade adulta literária e de um namoro com um novo autor. Agora Saramago está no altar dos mestres, logo a seguir a Eça e a Pessoa. E olhem que quando me apaixono é para sempre.



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