• Livros e livros

    Há livros que não são para todos. Ou porque requerem um conhecimento da História, da cultura do escritor ou da própria língua que não temos. Ou porque estão tão mal escritos que nem dá vontade de passar o primeiro parágrafo. Ou ainda porque o género não nos diz absolutamente nada. Até aqui tudo bem.

    Só que depois há os livros consagrados, considerados por todos os críticos como essenciais, obrigatórios, obras primas da Literatura, e que simplesmente não conseguimos ler. Pegamos neles cheios de expectativa, cheios de certeza de que vão são as horas mais bem passadas dos últimos tempos e acabamos por nos perder logo no início do primeiro capítulo. «Não pode ser. Mas se toda a gente diz que é tão bom, vou ter de ler até ao fim. Se calhar a culpa é minha. Tenho de ler em silêncio. Ou tenho de ler antes de ir para a cama, antes de estar com sono, antes que a família chegue a casa, antes que o gato acorde.» E tentamos lê-lo em diferentes situações e até em diferentes posições. Porém, sempre com o mesmo resultado: um nervoso miudinho, uma voz no cerébro a dizer «esse livro é uma seca! Nunca o vais acabar!», uma certeza de que somos demasiadamente burros para entender tão belas palavras.

    Ora eu, quando um livro me faz sentir assim, burra, não insisto. Simplesmente ponho-o de lado e pego noutro. Mal digo durante uns minutos todos os intelectuais que disseram bem dele e todos os amigos que mo aconselharam, mas não fico a achar que o problema é meu.

    Primeiro, porque penso que um livro realmente bom e realmente clássico deve ser para todos. Não é o leitor que tem de ter um curso de Literatura ou uma cultura geral enciclopédica. O escritor é que tem de conseguir contar uma história de um modo belo, mas inteligível, mesmo quando o tema é mais filosófico ou mais intelectual. E há centenas de autores que o fazem.

    Segundo, porque há tantos livros realmente interessantes a ler ainda nesta vida, que não vou perder o meu tempo com algo que me está a incomodar.

    Tudo isto para dizer que "As memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, ao fim de setenta páginas foi para o lote dos "livros secantes que não vou sequer tentar voltar a ler". Mesmo ao lado do "Ulisses" do James Joyce (embora este ainda tenha tentado três vezes). Próxima tentativa: "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. Wish me luck...

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