• O valor da vida

    Já há algumas semanas que venho a alertar os meus amigos (pelo menos a comunidade facebookiana) para a tragédia que está a acontecer em África. Como os meus posts não consistem num jovem a atirar-se para as moitas num skate ou em frases como "a comer sushi ao pôr-do-sol", não tenho tido grandes comentários.

    Bem sei que estamos a falar de África, que são todos pretinhos, pobrezinhos e haverá sempre fome em algum sítio do mundo. Bem sei que as pouquíssimas imagens que nos chegam são iguais às que já vimos milhões de vezes desde a altura do Live Aid e da crise na Etiópia, o que nos torna quase imunes às mesmas.

    O que não aceito é que se passe duas semanas a dar cobertuda ao acto de um lunático que matou 77 pessoas ou que os governos estejam tão atentos ao que se passa no Médio Oriente (por razões políticas e petrolíferas óbvias) ao ponto da própria Hilary Clinton afirmar ser intolerável o que se passa na Síria, onde 2000 pessoas foram mortas pelo seu próprio governo, incluíndo um bebé de um ano, e ninguém esteja a falar das 2000, DUAS MIL PESSOAS POR DIA que estão a morrer de fome na Somália. E acredite Sr.ª Clinton, que muitas são crianças com um ano.

    ONZE MILHÕES. Mais do que toda a população portuguesa, é o número de seres humanos que estão a sofrer as consequências drásticas da maior seca dos últimos sessenta anos no Corno de África. Onze. 11 000 000. Prevê-se uma catástrofe maior do que a de 1984. Mas ninguém quer saber. Porque são pretinhos, pobrezinhos e é impossível acabar com a fome no mundo.

    Não quero com isto desvalorizar a morte das 77 pessoas na Noruega. Jovens de futuros promissores, filhos, netos e irmãos de alguém que está neste momento com a vida destroçada. Também não desvalorizo por um segundo as duas mil pessoas que estão a ser massacradas na Síria, ou no Afeganistão, ou na Coreia do Norte ou em qualquer ponto deste planeta irracional. Mas duas mil pessoas por dia? Duas mil pessoas por dia que podem ser salvas com cerca de mil milhões de euros, que é quanto custa enviar equipas, comida e água para o terreno?

    O que é que podemos fazer? Podemos falar com os nossos amigos e transformar isto num assunto de café, podemos comentar nos blogues, redes sociais ou nos espaços próprios dos jornais online, podemos contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros ou as embaixadas dos países com assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas para que levem o assunto à próxima reunião, podemos obrigar a comunicação social a falar do assunto, podemos organizar marchas e vigílias. Se tudo isto der muito trabalho, podemos simplesmente fazer um telefonema de valor acrescentado ou assinar a petição de uma qualquer ONG que esteja no terreno. 


    http://www.unicef.pt/artigo.php?mid=18101112&m=3&sid=1810111239

    http://cruzvermelha.pt/ultimas-noticias/1191-corno-de-africa-seca-e-inseguranca-alimentar.html 

    http://act.one.org/sign/horn_of_africa/?source=horn-partner-post

    http://www.avaaz.org/en/somalia_stop_the_famine_unsc/?cl=1197160320&v=9810

    Há sempre alguma coisa que podemos fazer. O que não podemos mesmo é continuar indiferentes.



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