• Amamentar não é para toda a gente.


    Digam o que disserem, argumentem o que quiserem, a verdade é que amamentar não é exactamente aquele momento terno e pacífico que as imagens do acto nos mostram. Pelo contrário! Para a maioria das mulheres, até que mãe e filho apanhem o jeito, é um momento difícil e doloroso. Claro que os benefícios para o bebé são imensos e inegáveis, mas para muitas mães, por mais razões que a Organização Mundial de Saúde, a associação das mães que amamentam até os miúdos irem para a escola primária e os pediatras fundamentalistas dêem, amamentar é uma seca. Eu assumo que não gosto e aposto que muitas mulheres só continuam a amamentar por meses a fio porque têm medo dos olhares reprovadores que lhes fazem quando dizem estar a ponderar dar às suas crias leite artificial.

    Das inúmeras razões para não gostar de amamentar que me vêm de repente à cabeça, vou destacar apenas as que ninguém nos explica quando estamos grávidas e que só descobri quando iniciei a experiência: 

    1. Mamilos doridos 
    Não me estou a referir aos problemas graves que algumas mulheres têm, que incluem feridas, infecções etc. Mesmo que corra tudo bem, há sempre uma altura do dia em que os mamilos estão doridos ou hipersensíveis de tanta chupadela. Sim, há cremes e pomadas que se podem usar; sim, há protectores de silicone, mas a verdade é que ao início dói e não é pouco.

    2. Falta de sexo de qualidade
    Pois minhas amigas, o dia chegará em que vos vai apetecer fazer o amor. Só que a amamentação retira a lubrificação natural e, além disso, as maminhas deixam de fazer parte da equação. Porquê? Se um duche de água quente faz o leite começar a sair imaginem o que farão umas mãos ávidas. Já para não falar do ponto acima: mamilos doridos. (Isto também aumenta a frustração do pai da criança, porque apesar de todos os dias ter diante si um peito enorme e firme, de fazer inveja a muitas capas da Playboy, não lhe pode tocar) 

    3. Demora horas! 
    Bem sei que nos primeiros meses o papel da mãe é, exactamente, dedicar-se 100% ao seu bebé. Para isso é que existem licenças de maternidade e tudo mais. Mas passar oito horas por dia a amamentar é de dar em louca. Porquê oito horas? Porque os bebés pequeninos comem pelo menos 7 vezes por dia e o ritual é: come de uma mama durante uns 15 minutos (se não mais, porque há quem diga que se deve deixar o bebé ficar o tempo que lhe apetecer – claramente pessoas que têm muito tempo livre nas mãos), 5 ou 10 minutos para arrotar, mais 5 ou 10 minutos na outra mama e voltamos ao filme de arrotar. Depois há que mudar a fralda, o que por vezes inclui mudar a roupa toda, e a possibilidade do bebé estar a engasgar-se e precisar de arrotar mais um bocadinho. Nisto passou-se no mínimo uma hora. A meio da noite significa que quando voltamos para a cama e estamos finalmente prontas para voltar a dormir, já só faltam duas horas para o bebé voltar a acordar. E a meio do dia significa que naquelas duas horas temos de optar entre dormir um bocadinho ou tomar banho, comer e fazer tudo o que há para fazer em casa. Bom, não é?

    4. Sentimo-nos umas autênticas vacas 
    Sobretudo quando temos de tirar leite para deixar para o bebé ou simplesmente porque o peito está demasiado cheio e pode encaroçar. Aí sim, temos a confirmação de que não passamos de um mamífero cuja função é ser ordenhado. Cada apertão é um esguicho, tal e qual uma vaquinha leiteira. Muito sexy. 

    5.Não sabemos se o bebé está a comer muito ou pouco 
    Por isso, pode acontecer ele chorar depois de ter comido durante mais de meia hora e nós a desesperar sem saber o que ele tem. Já comeu, tem uma fralda limpa, tem colinho, o que será? Fome. Toca a por a maminha de fora e começar tudo outra vez.

    Resumindo, as vantagens para o bebé são grandes (embora eu e milhões de crianças tenhamos sido alimentadas a leite artificial e estejamos aqui, bem muito obrigada), mas para a mãe resumem-se a ser muito mais prático do que andar com biberões atrás e ajudar a perder mais depressa o peso da gravidez.

    Pronto. Agora os fundamentalistas da amamentação podem indignar-se e insultar-me. Mas antes de o fazerem e de tratarem todas as mães que não querem amamentar como criminosas, lembrem-se que é uma opção individual. Todas as mães querem o melhor para os seus filhos e muitas vezes, uma mãe feliz e bem disposta faz melhor à saúde do bebé do que uma mãe deprimida, que amamenta por obrigação e que passa essa energia negativa ao seu rebento.

    6 comentários → Amamentar não é para toda a gente.

    1. Rita Cascais disse... 9 de julho de 2012 às 20:54

      Adorei.Ri-me tanto com a tua descrição.Faz falta que alguem diga a verdade nua e crua sobre os mistérios da gravidez e primeiros passos como mamã, pois toda a gente diz que tudo é maravilhoso.
      Fico a aguardar a próxima crónica.
      Beijinho

    2. obrigada Rita ;)

    3. Muito Bom! Adorei! Revi-me em cada palavra!!!

    4. hahaha Posh, ninguem nos conta nada disso né?
      Mas ainda sim amamentar é maravilhoso...amamentei minha pequena Beatriz até 1 ano, quando ela decididamente fez sinal com a mão de que não queria mais!

    5. Este comentário foi removido pelo autor.
    6. Compreendo perfeitamente os teus argumentos :)
      Amamentar não se faz por obrigação, nem porque é melhor para o bebé, nem porque é pior dar biberão, nem porque senão os outros criticam, nem com minutos contados, nem a pensar no que se vai (deixar de)vestir. Amamentar é uma coisa que se faz por prazer, porque se quer ou então não vai funcionar por muito tempo.
      Tive sorte. Nunca tive dificuldades em amamentar, talvez também porque era uma coisa que queria muito fazer e por isso procurei aprender com quem percebe (muito) do assunto, o que me evitou (estou certa) alguns potenciais problemas, que podiam ter sido determinantes se não estivesse informada. Tem sido uma experiência maravilhosa...há 20 meses :). Achei que aos 12 ia acabar (altura em que deixei de tirar leite diariamente com a bomba, no trabalho, porque já não era eficiente) mas não consegui. Ela adora e eu também. De manhã e à noite temos "o nosso momento" e, enquanto for bom para as duas, vai ser ela a decidir quando acaba.
      Compreendo os constrangimentos de que falas, acredita (e há pessoas que sofrem horrores!). E não sou fundamentalista. Mas também não é melhor teres de te "esconder" para alimentar a tua filha, como se fosse vergonhoso, porque "parece mal" as outras pessoas verem um bocadinho de mama - numa sociedade onde se vêm tetas e mamas escarrapachadas por todo o lado, a propósito de tudo e de nada, para efeitos publicitários. Garanto-te que estou fartinha de ver decotes em que se vê mais mama do que quando damos de mamar...
      São opções, cada um faz o que entende ser melhor e ninguém tem nada a ver com isso ;).

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