• Concertos 2.0


    Quando eu era miúda ir a um concerto era algo muito especial. Primeiro, porque não havia assim tantos concertos em Portugal e segundo, porque tinha aquela sensação de estar a presenciar um acontecimento único.

    Quando eu era miúda as pessoas que iam aos concertos, mesmo que não fossem os maiores fãs daquela banda, aproveitavam a experiência. Ouviam, aplaudiam, respeitavam os artistas e as outras pessoas que estavam ali para ver o espectáculo. 

    Quando eu era miúda havia chamas de isqueiros a encantar o recinto sempre que soavam os acordes de uma balada.

    Os anos passaram, eu deixei de ser uma miúda e cada concerto passou a ser apenas mais um concerto para colocar na agenda do mês. Deixou de ser algo único porque a mesma banda nos visita várias vezes, mas sobretudo porque se transformou num mero evento social. São poucos os que vão ver a banda pelo que ela é e cada vez mais os que vão porque é suposto ir; os que não respeitam os artistas ou quem quer realmente ver o concerto, agrupando-se como se estivessem numa rua do Bairro Alto a conversar animadamente com os amigos de cerveja na mão; os que vêem o concerto através do ecrã dos seus telemóveis, porque mais importante do que estar ali é mostrar aos outros onde se está e ganhar reconhecimento virtual.

    Isto entristece-me porque me coloca perante a evidência de que estamos a construir uma sociedade baseada em coisas que não existem para lá de um dispositivo electrónico. Uma sociedade que não sabe aproveitar o momento pelo que ele é, preferindo viver o momento pelo que este lhe pode fazer parecer perante uma audiência ilusória.

    Deixei de ir ao cinema por não estar para aturar barulho de pipocas e conversas de café durante o filme inteiro. Se calhar também terei de deixar de ir a concertos para não ter de assistir ao pobre espectáculo de milhares de pessoas a fazerem actualizações ao seu estado "internáutico", com fotografias e vídeos captados segundos antes, e onde já não consigo vislumbrar uma única chama a balouçar na escuridão, senão pelos breves instantes em que alguém está a acender um cigarro.



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