• #12: não dá para lhes tirar as pilhas



    Todas as mães, por mais extremosas que sejam, já sentiram alguma vez na vida o enorme desejo de tirar as pilhas aos filhos. Seja porque naquele dia a criança está num dia não, fazendo birras atrás de birras (sim, as crianças também têm direito a ter dias não), seja porque estamos tão, mas tão cansadas que não conseguimos aguentar mais um jogo, mais um minuto no parque, mais um "Ó mãããeeee" gritado do outro lado da casa.

    É que as crianças, em geral, têm energia suficiente para dar cabo de um adulto em menos de duas horas e, por muita vontade de estar com elas que se tenha, há dias em que simplesmente só nos apetece fugir, seja durante a semana, seja em períodos de (suposto) descanso.

    Durante a semana vivemos entre o sentimento de culpa de passar o dia longe dos nossos filhos e o alívio secreto de termos um local de trabalho que nos protege da esmagadora rotina de cuidar do lar e de uma criança durante um dia inteiro. (Nalgumas mulheres este sentimento surge ainda durante a licença de maternidade, altura da vida em que os dias nos parecem todos iguais e a falta de vida social se pode tornar esmagadora.) Também vivemos entre os dias em que encaramos as tarefas de chegar a casa, dar banhos, fazer jantar e inventar tempo para brincar com as crianças com prazer e satisfação maternal e os outros, em que só nos apetece adiantar os relógios para a hora de ir para a cama, de modo a podermos "desmaiar" no sofá ou em que pedimos a todos os santinhos que as nossas crias não façam nada que nos possa transformar numa "Mãezilla".

    E se durante os dias de trabalho estes sentimentos são bastante compreensíveis, sobretudo para quem tem vidas profissionais muito exigentes, desengane-se quem acha que ao fim-de-semana eles não nos assombram.

    Ao fim-de-semana, teoricamente, temos tempo para fazer tudo com calma, dar todos os passeios prometidos e fazer os programas de família com que sonhámos durante a semana, mas também é a altura em que passamos mais horas seguidas com os miúdos (48 horas mais precisamente). Assim, é inevitável sentir um desejo secreto de que eles fiquem a dormir até mais tarde e vão brincar para a sala sozinhos (de preferência em silêncio). Ou que prolonguem as sestas por mais de uma hora e meia. Sempre ganhamos esse tempo para recuperar o fôlego de uma manhã extenuante, terminar alguma tarefa doméstica ou simplesmente para fazer o amor, por exemplo. 

    Sem sesta, não há filme, puzzle ou iPad que nos garanta mais de meia hora de descanso, já que, até uma certa idade, a concentração de uma criança numa única actividade é sol de pouca dura e parece que, quanto mais coisas queremos fazer (ou não fazer!), mais ela solicita a nossa atenção. Nesses casos, e como de facto não dá mesmo para lhes tirar as pilhas, resta-nos ter uns avós ou tios extremosos que se ofereçam para ir dar uma voltinha com os meninos ou (e a esses não há dinheiro que pague) os levem mesmo durante um dia inteiro. Uma festa de anos ou o convite para passar o dia em casa de um amiguinho também começam a ser vistos como pequenas bênçãos para os pais de maiores de seis anos.

    Pode haver quem diga que ter estes sentimentos é ser uma má mãe, que se não queríamos ter trabalho não devíamos ter tido filhos, que as crianças não têm culpa e precisam da atenção dos pais, blá, blá, blá. Para mim, isso são comentários de "Mães Aleijadas" ou de quem ainda não tem filhos. Desejar, de vez em quando, que existisse um botão que nos transportasse para uma realidade sem obrigações maternais durante umas horas é normal, é legítimo e nenhuma de nós se deve sentir mal por isso. Se bem me lembro, quando era miúda, também desejava que os meus pais desaparecessem durante um bocadinho para eu poder fazer o que bem me apetecia. 



    1 comentários → #12: não dá para lhes tirar as pilhas

    1. Cada palavra que leio parece que lê os meus pensamentos, é assim que me sinto. Muitas vezes até me sinto culpada por desejar um pouco de tempo sozinha. Fiquei desempregada e é muito difícil estar sempre em casa com duas crianças, deixamos de ter o nosso espaço e a vida social é nula. Adoro tudo o que escreve. Continue este excelente trabalho. Fico feliz por a ter conhecido através da RFM. Obrigada ;) Vanesa Veigas

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