• #18: Sexo deixa de ser uma prioridade.

    Numa das crónicas anteriores, terminei o texto a dizer que uma mãe cansada prefere sempre dormir a uma noite de sexo escaldante. Isto não só provocou um frenesim de mensagens a questionar a qualidade da vida sexual de todos os casais que têm filhos, como ainda pôs em questão a minha própria vida conjugal.

    Calma. Não entrem já em pânico, por favor, e não me liguem a perguntar se precisamos de terapia conjugal. Não é verdade que as mulheres percam o desejo sexual depois de serem mães, nem é verdade que se sintam menos sexy e atractivas. Passando aqueles primeiros meses pós-parto, em que o desequilíbrio hormonal se alia à flacidez pélvica e aos quilos extra que nunca mais se vão embora, o desejo regressa com tanta ou mais força do que antes. Só que, com filhos, surge a questão da disponibilidade.

    No fundo, é como ter uma tia a dormir lá em casa ou passar um fim-de-semana com amigos com quem ainda não temos total à vontade. Ninguém se vai pôr a andar nu pela casa e a fazer o amor onde quer que lhe apeteça, pois não? Então, com filhos é a mesma coisa, mas para sempre! Quer o casal seja mais virado para sexo matinal, quer seja mais virado para sexo nocturno, há sempre um (ou mais!) pequeno ser lá em casa. E se, no início, a falta de disponibilidade se prende com o cansaço das noites mal dormidas, depois passamos a ter o factor "criança que já consegue sair da cama sozinha e entrar pelo quarto dos pais adentro". A possibilidade de infligir esse tipo de trauma a uma criança e ser tema de conversa no recreio da escola (ou pior, no gabinete do director da escola), também não é algo que eleve a libido de uma mãe.

    Mas há muitas outras coisas que afectam gravemente a disponibilidade sexual e que são, basicamente, todas as novas tarefas que vêm com a criançada:

    - preparação de refeições nutritivas (não dá para jantar cereais e congelados todos os dias...);
    - aumento da lide doméstica em geral (roupa, mais roupa, mais lençóis e resguardos, mais babetes encardidos, mais banana colada ao chão, mais pastilha elástica presa no cabelo, mais uma nódoa de chocolate no sofá...);
    - idas e vindas dos colégios, escolas e actividades extracurriculares;
    - ajuda nos trabalhos de casa, no projecto de ciências, no trabalho de arte plástica que a professora pediu aos pais para fazerem...
    - tempo para efectivamente brincar com as crianças, porque foi para isso que as tivemos, não?

    Por isso, se achavam que antes de ter filhos tinham uma vida muito ocupada, entre o trabalho, o ginásio e a vida social, deixem-me só rir um bocadinho.
    Agora a sério: lamento ser eu a portadora de tais notícias, mas para todos os que ainda não são pais é bom que estejam conscientes que o sexo deixa mesmo de ser uma prioridade. Não por falta de desejo, não por monotonia, apenas e só porque, quando os miúdos estão finalmente na cama, os pais mal têm energia para lavar os dentes. A solução é uma enorme dose de criatividade para encontrar sítios e horários à prova de criança. Aqui ficam algumas sugestões:

    - aproveitar o período das sestas
    - pedir à baby-sitter para levá-los num loooongo passeio
    - pôr o despertador para 20 minutos mais cedo
    - um duche rápido, enquanto eles vêm um filme na sala
    - deixá-los ir brincar para a rua
    - aproveitar que as visitas estão lá em casa e ir "buscar umas cadeiras à arrecadação"
    - fugir para uma divisão recôndita durante um almoço de família
    - passar por um motel à hora de almoço.

    É uma lista em constante construção, por isso, não se deixem limitar por ela e lembrem-se que, embora deixe de ser uma prioridade para as mães, o sexo nunca deixa de ser uma prioridade para os pais. E é, sem dúvida, uma das coisas mais importantes para uma relação feliz.




    2 comentários → #18: Sexo deixa de ser uma prioridade.

    1. Esta sua crónica traz-me a lembrança dum episódio que se passou com o meu filho, tinha ele à volta de sete anos. Certa manhã lânguida de domingo, minha mulher e eu estávamos tão divertidos debaixo dos lençóis que nem demos que a porta do quarto se tinha aberto. Só demos que ele nos tinha apanhado em flagrante deleite quando o ouvimos com uma certa marotice na voz, no mesmo tom como se tivesse apanhado a irmã a comer a compota do frasco com os dedos: ah! ah! E saiu a correr com a satisfação de quem tinha descoberto o segredo dos grandes…

    2. :D acho que acaba por ser mais traumático para os pais dos que para as crianças, não é? Elas acham tudo divertido.

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