• Histórias para o meu avô


    Já escrevi em vários lugares que devo à minha mãe a paixão pela leitura e à minha professora primária a paixão pela escrita. Mas houve alguém na minha vida de quem nunca falei e que também contribuiu significativamente para o meu desejo de me tornar uma escritora: o meu avô.

    O meu avô foi das pessoas que mais gargalhadas me arrancou durante a infância. Para ele, os netos eram uma festa e tudo valia: pô-los a rir, pô-los a chorar, virá-los de cabeça para baixo ou molhá-los com a mangueira, mesmo que fosse Inverno. Mas mais importante que tudo, foi ele quem me ensinou a usar a imaginação.

    É que um passeio com o meu avô pela Mata da Machada, não era um simples passeio: era uma corrida no meio de uma floresta cheia de perigos. "Cuidado! Está ali um leão!", gritava de repente. "Pára! Isso são areias movediças!", alertava, obrigando-nos a saltar por cima de uma poça de lama. "Sem rir, sem chorar!" e lá íamos nós atrás dele, esfolados, enlameados e profundamente felizes.

    E os Domingos de manhã, quando dormíamos lá em casa? O edredon transformava-se num café e nós os empregados que servíamos o pequeno almoço. "Ai, que porcaria! O café está frio!" e lá íamos nós, para baixo do edredon, preparar outro. "Mas o que é isto? O café tem sal!" e lá pedíamos desculpas, voltando para o fundo da cama às gargalhadas.

    Na praia, íamos caçar gambozinos e voltávamos com o balde cheio de caranguejos, o barquinho de borracha era um navio no meio da tempestade e as pernas dele uma ponte para passarmos por baixo e aprendermos a dar mergulhos (sem a mão no nariz!).

    Até foi o meu avô quem baptizou o meu amigo imaginário! Sim, Perana não é um nome que uma menina de cinco anos inventasse. Mas ao contrário dos outros adultos, que se riam das minhas conversas com o meu amigo invisível, o meu avô fazia-me perguntas sobre ele e obrigava-me a inventar histórias atrás de histórias acerca do que ele me dizia. Vendo bem, foi o meu avô que me ajudou a construir a minha primeira personagem, antes mesmo de saber ler ou escrever.

    Tenho pena de muitas coisas que não vivi nos últimos vinte anos ao lado do meu avô. Tenho pena que não tenha conhecido o meu marido e os meus filhos. Que não tenha estado no meu casamento, no meu final de curso e em tantos outros momentos marcantes da vida. Tenho pena de não poder abraçá-lo nem deitar-me na sua cama a conversar, como fizemos tantas vezes. Mas a coisa de que tenho mais pena é que ele não tenha assistido ao momento em que as minhas histórias, aquelas que ele ajudou a escrever por tanto ter exercitado o músculo da minha criatividade, se tornaram livros de verdade.

    Pode ser que aquela ideia reconfortante de que os nossos mortos estão a assistir às nossas vidas, lá onde se movem os espectros, seja real. Mesmo que não seja, uma coisa é certa: o meu avô vive dentro de mim há precisamente vinte anos e, enquanto assim for, continuarei a inventar histórias para lhe contar.

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