• Esta crónica não é sobre a Grécia


    Não gosto de falar de política. Os meus conhecimentos de História, de Economia, de Ciência Política são demasiado superficiais para me pôr aqui a analisar cenários e a tecer conclusões sobre o que se está a passar na Grécia e, consequentemente, na União Europeia. Sobretudo o como e o porquê. Toda a minha opinião sobre o assunto é baseada na informação que vejo e leio nos Media, que como todos sabemos, nem sempre são isentos e imparciais. No entanto, não consigo assistir calada a esta tragédia, uma tragédia que não é só grega.

    O que aconteceu este fim-de-semana vem apenas provar o que muitos, de esquerda, de direita, do centro, têm vindo a dizer nos últimos anos, mais precisamente desde que a crise de 2008 veio desfazer o mito da prosperidade continental: a União Europeia é uma anedota. É uma ditadura económica que se impõe a qualquer pretensão de soberania que tenhamos. E nós, os povos que elegem cada uma das pessoas que estão no poder, temo-nos deixado levar por esta história politicamente correcta do somos todos europeus, vamos todos cantar a uma só voz, nunca mais vamos ter uma guerra. Deixámo-nos embalar pela conversa de estarmos a criar uma União "fundada nos valores do respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, Estado de direito e respeito pelos direitos humanos" quando, no fim, os únicos valores que contam são os da banca. Provavelmente não devíamos estar surpreendidos, até porque, na sua génese, os principais objectivos da Comunidade Económica Europeia eram simplesmente o desenvolvimento de um mercado comum e de uma união aduaneira entre os países membros. Mas não deixa de me chocar.


    Em 2012, a União Europeia foi laureada com o Nobel da Paz "por ter contribuído ao longo de mais de seis décadas para o avanço da paz e da reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa" e agora é a primeira a impor a sua vontade arrogante,  pondo na gaveta todas as palavras bonitas que tão bem servem os discursos políticos. Não quero ser pessimista, mas vejo esta postura como o princípio do fim.


    Não acho que a Grécia esteja isenta de culpa do estado a que chegou, tal como nós portugueses não estamos com o que se passa por cá. Mas recorrer à chantagem, "ou assinas ou sais do euro", desrespeitando a vontade do povo grego, que elegeu aquele governo, e não os governos dos que agora ditam as regras, é um escândalo. Significa que em Outubro, mais uma vez, também nós vamos votar para nada, para eleger um Governo fantoche que mantenha o estado das coisas, bom aluno, cumpridor das imposições dos outros, mesmo quando isso significa o sacrifício absurdo de quem o elegeu. Por isso, esta crónica não é sobre a crise da Grécia. É sobre a crise da soberania que nos afecta a todos.


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