• 10 razões para adorar e odiar estar grávida


    Como em tudo na vida, também na gravidez as opiniões dividem-se entre quem acha que é o momento mais espetacular da vida e quem o vê apenas como um longo e penoso meio para fazer seres adoráveis. Conheço mães que, uns meses depois do parto, já têm saudades da sua barriga e outras que até queriam ter mais filhos, mas não aguentam passar por tudo outra vez. É que a gravidez tem muitas coisas maravilhosas, mas também tem muitas coisas insuportáveis (as tais de que ninguém costuma falar).

    Decidi por isso fazer uma pequena compilação realista do melhor e do pior que uma mulher pode esperar durante uma gestação. A partir daqui, tirem as vossas próprias conclusões, mas depois não digam que ninguém vos avisou.

    10 para adorar

    1. Comer o que nos apetece
    Esta é uma das melhores coisas da gravidez, sobretudo para quem gosta de comer e passou uma vida inteira a ter cuidado com a alimentação. É que, a não ser que tenhamos alguma restrição médica, durante a gravidez podemos comer como umas bestas e ainda somos elogiadas por isso. A frase “toma lá mais um bocadinho, que tens de comer por dois”, embora seja a maior das mentiras, é repetida por todos os que nos rodeiam e torna-se música para os ouvidos de uma grávida esfomeada. Mais um bocadinho de risotto? Com certeza! Mais um quadradinho de chocolate? Porque não? Perdido por cem, perdido por mil, e quando o peso ganho ultrapassa os dois dígitos, uma grávida deixa de contar os quilos a mais. “O que é que interessa se engordei 14 ou 17 quilos? Dá cá mas é mais uma alheira, que de gorda não passo.”

    2. Passar à frente de toda a gente e ter lugares especiais
    A maioria das pessoas que nunca passou por uma gravidez (como gestante ou como familiar) não imagina o bom que é haver sítios com prioridade. É que, ao contrário do que possam pensar, uma grávida precisa mesmo deles. E é de aproveitar, não só pela nossa saúde, mas também porque sabe lindamente passar à frente de toda a gente naquela fila de meia hora. É um luxo que se tem uma ou duas vezes na vida, por isso, não tenham vergonha de aproveitar. E se alguém vos olhar de lado e murmurar a célebre frase “gravidez não é doença”, sorriam e respondam “azar o seu”.

    3. O mundo inteiro sorri
    Durante meia dúzia de meses, qualquer cidade do mundo parece a Disneylândia. Toda a gente nos sorri, nos dá passagem e se oferece para nos ajudar. Até o funcionário público trombudo que nunca ajuda ninguém. E isso faz-nos sorrir também e acreditar que o mundo é um lugar lindo para criarmos os nossos adoráveis bebés.

    4. Temos sempre um criado
    Seja o nosso companheiro ou o colega do lado, há sempre alguém que tem todo o gosto em ir buscar um copo de água, apanhar a caneta que caiu no chão ou acompanhar-nos ao carro num dia de chuva. E quanto mais a gravidez avança, maior a qualidade do serviço. Aproveitem, porque depois do bebé nascer, acabam-se as atenções.

    5. Podemos sair de casa de qualquer maneira
    Com nódoas na camisa, com o cabelo despenteado, com uma borbulha na ponta do nariz. Ninguém tem a coragem de dizer a uma grávida que ela está feia. Claro que há sempre aquelas cabras que gostam de nos torturar com um “já engordaste um bocado” ou “ tás um bocado inchada”, mas a verdade é que a maioria das pessoas foca-se na nossa linda barriga e pele radiosa. E, por mais que saibamos que estão a mentir um bocadinho, a verdade é que sabe sempre bem ouvir uns pequenos elogios.

    6. Mamas grandes sem cirurgia
    Ah, o sonho de todas as mulheres com o peito pequeno: de um dia para o outro, ficamos com umas maminhas grandes, firmes e 100% verdadeiras. E não mintam: não há nenhuma mulher que, podendo escolher, optasse por uma copa A, pois não?

    7. Sentir o bebé
    Esta é, sem dúvida, uma das melhores sensações da vida e uma das coisas que realmente deixam saudades. Sentir o nosso bebé, imaginar as cambalhotas que está a dar, ver como reage à nossa voz ou às festinhas que fazemos na barriga. Claro que, de vez em quando, levamos com um doloroso pontapé nas costelas, mas não deixa de ser adorável.

    8. Não fazer cerimónia
    Uma grávida nunca precisa de fazer cerimónia. Seja um almoço de negócios secante, seja o casamento da prima em segundo grau do nosso companheiro, ninguém leva a mal se dissermos “não me ando a sentir muito bem, por isso é melhor não ir”. O mesmo se aplica às visitas que nunca mais se vão embora. Um “desculpem mas tenho mesmo de me ir deitar” dito por uma pessoa normal é considerado um pouco rude, mesmo que tenha tido um dia horrível e precise de se levantar às 5 da manhã. Dito por uma grávida, é perfeitamente compreensível.

    9. Comprar o enxoval
    Não há coisa mais encantadora do que roupa de recém-nascido. É como voltar a brincar com Nenucos! Tudo é fofinho, bonitinho e cheirosinho. Tudo tem lacinhos, folhinhos, fitinhas. E o melhor é que, ao contrário de tantas outras vezes que vamos às compras, são coisas que precisamos mesmo de comprar! Até o mais forreta dos maridos é incapaz de uma palavra de censura. Querem melhor que isto?

    10. Incontinência verbal
    Todas as indiscrições, todas as irritações, todas as respostas tortas são perdoadas a uma grávida. É como com os maluquinhos ou os bêbados: a maioria das pessoas encolhe os ombros e pensa “deixa-a estar, coitada, está grávida”. Assim, esta é a altura perfeita para dizermos aquelas coisas que socialmente não deveríamos dizer, ou aquelas verdades que passamos a vida a esconder. É como o Carnaval: ninguém leva a mal. E se levar, pedimos desculpa e pomos as culpas nas hormonas.


    10 coisas para odiar

    1. Enjoos e dores várias
    Esta parte não é segredo para ninguém, mas vivê-la é pior do que parece. Os enjoos vão da simples sensação de náusea, como se estivéssemos em alto mar, até à cena de exorcista todas as manhãs, e tanto pode durar apenas algumas semanas como a gravidez inteira. As dores vão desde a simples dor de cabeça, até à enxaqueca de vários dias, dor de barriga, dor tipo cólica menstrual, dor nas costas, dor ciática... e por vezes podemos ter várias destas dores ao mesmo tempo. Simpático, não é?

    2. Privação de sono
    Se no início o sono pode ser interrompido pelos enjoos, à medida que a gestação evolui, há vários outros incómodos que nos acordam todas as noites. Vontade de fazer chichi, fome incontrolável, cãibras, contrações de treinamento, refluxo ou simplesmente insónia. Há quem diga que é o corpo a habituar-se ao ritmo que nos espera quando tivermos um recém-nascido em casa a acordar de 3 em 3 horas, mas devo dizer que é mentira. A privação de sono que o bebé nos causa nas primeiras semanas (ou meses) é muito pior.

    3. Transformamo-nos num taberneiro
    Sabem aqueles senhores mais velhos que passam o dia na taberna e que não se coíbem de deixar sair de dentro do si tudo o que lhes apetece? É assim que uma grávida fica. Desde flatulência, aos arrotos audíveis na casa do vizinho, há coisas que uma grávida não consegue conter. Mas há outra semelhança entre uma grávida e um taberneiro: as constantes nódoas na roupa. É que às tantas a barriga obriga-nos a comer a um metro da mesa e o guardanapo escorrega do colo. Sim, é embaraçoso. Sim, é motivo de gozo para os nossos companheiros. Sim, temos de aguentar.

    4. Desequilíbrio emocional
    Já dediquei uma crónica inteira a este tema, mas nunca é demais reforçar que as hormonas da gravidez provocam desequilíbrios emocionais incontroláveis, cuja consequência vai do simples choro a cada notícia do telejornal, até ao insulto de qualquer pessoa que nos contrarie. E o pior é que não há nada a fazer. Por mais que nos tentemos controlar, naquela altura, a nossa crise parece ser perfeitamente lógica e justificável. Haja paciência de todos os que nos rodeiam.

    5. Não beber, não fumar, não isto e aquilo
    Há coisas que custam mais deixar, outras que custam menos, mas todas as proibições acabam por se tornar irritantes. Não podemos fumar, não podemos beber, não podemos fazer uma data de desportos, não podemos comer não sei quantas coisas, umas por causa da toxoplasmose, outras por causa das bactérias, ou dos diabetes, ou do raio que o parta. Ah, e também não podemos dormir de barriga para baixo, nem para cima, nem tomar medicamentos, nem andar de avião a partir de certa altura... E é claro que é exactamente nesta altura que nos apetece todas estas coisas proibidas.

    6. Roupa pré-mamã
    Também já dediquei uma crónica inteira a este ponto, mas vale a pena relembrar que a roupa de pré-mamã é horrível e faz mal à alma. Todas as mulheres gostam de se sentir bonitas e já é difícil assistir a algumas das transformações menos abonatórias a que o nosso corpo fica sujeito. Mas ter de fazê-lo com roupa feia e pouco sensual é um verdadeiro martírio.

    7. Exames e análises

    Pelo menos três vezes por gestação há que tirar litros de sangue e fazer exames vários. Alguns são apenas incómodos, mas outros são mesmo dolorosos. Não é por acaso que algumas mulheres têm mais medo do “toque” do que do parto...

    8. Viajar de carro
    A partir da 35ª semana andar mais de 30 km de carro torna-se um suplício. Doem as costas, as pernas, o pescoço e a cada buraco na estrada parece que a criança vai saltar cá para fora. Quem faz barrigas muito grandes (como eu!) depara-se mesmo com a impossibilidade física de conduzir: é que a barriga encalha no volante e torna-se impossível chegar com os pés aos pedais...

    9. O sexo no terceiro trimestre
    Há mulheres que sentem a libido crescer durante a gravidez e a verdade é que, devido à maior irrigação sanguínea na zona genital e sensibilidade por todo o corpo, durante alguns meses, o sexo até pode ser melhor do que era. Isto até ao momento em que a barriga e os movimentos do bebé se metem no caminho. A questão da barriga ainda se consegue contornar com alguma criatividade na escolha das posições, agora os movimentos do bebé, que por vezes chegam a ser dolorosos, arrasam com a vontade de qualquer uma. Já para não dizer que, nas últimas semanas de gestação, a mulher já está completamente noutra e nem o Brad Pitt a fará tirar a roupa. Bom, talvez o Brad Pitt...

    10. Desfiguração física
    Não são apenas os quilos a mais, que a isso uma pessoa habitua-se e acaba por perde-los mais cedo ou mais tarde. O pior é assistir à desfiguração provocada pelo inchaço. Há mulheres que ficam sem tornozelos, outras que parece que puseram Botox a mais nos lábios e bochechas, outras que se conseguissem ver o seu traseiro achavam que pertencia a outra pessoa, e outras ainda que assistem ao alargamento do nariz e ao crescimento dos pés. Desagradável é um eufemismo e o pior é que a parte dos pés não é reversível.

    Por mais coisas boas e más que uma gravidez nos proporcione, é de facto uma experiência única, vivida de forma diferente por cada mulher. Não se entusiasmem muito com o bom, nem se assustem demais com o mau, porque no final é claro que vale a pena. Já passei por duas, não sei se quero passar pela terceira (a não ser que a Mãe Natureza resolva passar o tempo de uma gestação de 40 semanas para 25), mas recomendo a todas as mulheres. Quem puder, que experimente. É de facto o assistir ao milagre da vida.



    Texto originalmente publicado no livro "Coisas Que Uma Mãe Descobre (e de que ninguém fala)", Bertrand Editora, 2015

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