• Estar doente com filhos doentes

    Quando era miúda adorava ter um gripezinha. É que nessa altura ficar doente significava uns três dias em casa com a televisão só para mim, mimos extra da mamã, canjinha e lanchinhos levados ao sofá num tabuleiro e até um livro para pintar novo ou qualquer coisa do género que a minha mãe trazia para que eu não me aborrecesse.

    Quando saí de casa também não era nada mau ficar doente. Já não tinha a mamã, mas tinha o maridão, sempre prestável, sempre preocupado, que não fazia canjinha porque a primeira e única vez que lhe pedi apresentou-me uma canja com esparguete, que era a sua definição de “junta umas massas”, mas que assim que chegava a casa me enchia de chá e de mimos. Ficar doente era também uma oportunidade de fazer gazeta e estar três dias a ver televisão, a pôr a leitura em dia e, nos momentos em que o paracetamol fazia efeito e me dava uma energia extra, fazer aquelas coisas que nunca temos tempo para fazer em casa, tipo arrumar as gavetas ou limpar o frigorífico por dentro.

    Hoje em dia, com dois filhos pequenos, uma gripe é o meu maior pesadelo. E uma gripe a aturar duas criaturas também com gripe é a absoluta definição de INFERNO. Um inferno inevitável sempre que alguém adoece lá em casa.

    É que estar doente e ter os filhos doentes para uma mãe é fazer as mesmas coisas que faria se estivesse na melhor forma mas com febre e dores variadas. Não há cá tempo para descansar, nem para ficar no sofá e se quiser uma canjinha tem mesmo de levantar o rabo do chão, onde esteve sentada durante duas horas a brincar com legos e a separar brigas de irmãos, e ir fazê-la. Não há cá televisão a não ser que esteja ligada no canal Panda e claro que, no momento em que pensa que vai conseguir dez minutos para tomar um banho quente a ver se o vapor desentope o nariz, é chamada duzentas vezes por um dos monstrinhos.

    Estar doente e ter os filhos doentes para uma mãe é passar o dia a sonhar com a cama, mas quando chega a hora de dormir ter arrepios só de pensar que vai ter de se levantar umas quatro vezes para verificar febres, para distribuir copos de água, para acalmar tosses e depois voltar para a cama a pensar que é melhor não adormecer senão vai custar mais acordar na próxima chamada.

    Estar doente e ter os filhos doentes para uma mãe é desejar que o Brufen tenha nela o mesmo efeito que tem nas crias, que uma hora depois da toma passam de um estado de languidez para uma euforia tal que parece que fizeram uma linha de coca.

     E finalmente, estar doente e ter os filhos doentes para uma mãe é desejar ardentemente voltar para o escritório e se possível que lhe peçam para ficar a trabalhar até mais tarde. É que ao menos no escritório dá para estar sentada todo o dia e as dores de cabeça passam mais depressa sem gritos.

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