• O que faz falta é educar a malta




    Agora que trabalho a partir de casa, costumo ligar a televisão para ir dando uma olhada nas notícias enquanto tomo o pequeno almoço ou faço algumas tarefas domésticas. Por vezes as tarefas prolongam-se mais um bocado e o noticiário acaba, dando lugar a um qualquer programa da manhã, antes de eu ter tempo de desligar. Ontem, estava eu a acabar de estender a roupa quando ouvi os locutores nem sei de que canal a promoverem o programa do dia seguinte. 
    «- Já lhe aconteceu entrar no local de trabalho, dizer bom dia e ninguém lhe responder?
    - Não sabe se isso é normal?
    - Então não perca o programa da amanhã onde vamos falar de etiqueta no trabalho!»

    Pára tudo! Vamos falar de etiqueta no trabalho? Eu acho que devíamos era falar de civismo em geral. Dizer bom dia e ninguém responder não tem nada a ver com etiqueta no trabalho. É só má educação de último grau. Seja no trabalho, na sala de espera ou num elevador, quando se entra num lugar onde estejam outros seres vivos, diz-se bom dia. Sempre. 

    A minha surpresa não se deve às pessoas não responderem ao bom dia (já me aconteceu milhões de vezes) ou um canal decidir fazer parte do seu programa sobre o assunto. A minha surpresa surge de termos voltado a um ponto na nossa sociedade em que a falta de civismo é tal, que se têm de fazer programas a explicar isto às pessoas. Como se estas já não soubesse usar uma coisa básica chamada senso comum.

    Também no outro dia, no metro, vi um anúncio dentro da carruagem a explicar que se deve ceder o lugar a grávidas, idosos ou pessoas com crianças de colo. E que não há lugares específicos para essas pessoas, como as filas dos supermercados. Estejamos sentados onde estivermos, se chega um idoso, levantamo-nos e pronto. É triste ter de explicar isto. Parece que voltámos aos anos 80 em que se fazia propaganda a dizer "não deite lixo no chão" ou "poupe energia".


    E na estrada? Na estrada então, vive-se o verdadeiro faroeste. Já ninguém usa piscas, já ninguém pede desculpa por uma manobra desajeitada, já ninguém agradece se damos passagem. Isto para não falar no clássico estacionamento em segunda fila, em cima do passeio ou a bloquear a passagem. Cheguei a descrever isso num dos meus romances: «É curioso que não haja mais acidentes na estrada. O carro, pelo menos nas grandes cidades, está a transformar-se num catalisador de toda a raiva e angústias que acumulamos ao longo do dia. Aceleramos com os olhos vidrados no semáforo que teima em não mudar. Travamos com a mesma fúria com que gostaríamos de ter pisado aquela pessoa insuportável que nos fez perder a cabeça. Buzinamos como se o som que se espalha na rua fosse o grito que temos de guardar. Achamo-nos intocáveis, invencíveis, dentro da nossa fortaleza de metal.» (O Estranho Ano de Vanessa M., 2014). Intocáveis, invencíveis e profundamente malcriados, diria agora. 

    Numa era em que a informação, sobre seja o que for, está disponível instantaneamente, as pessoas estão cada vez mais burras e incivilizadas. Passam o dia com a cara enfiada em ecrãs, ligadas ao mundo, mas em vez de aprenderem alguma coisa só desaprendem. Temo que em breve surjam programas ou anúncios a explicar que não é suposto tirar macacos do nariz em público, que nunca se deve dispensar o «por favor» ou que não se come com as mãos. Aliás, não temo, porque seria realmente importante passar essa informação. Apenas me sinto profundamente desiludida por termos chegado ao ponto em que é necessário que sejam as instituições públicas a educarem as pessoas. Pura infantilização da sociedade.



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