• Europa ensombrada


    Sei que esta crónica não interessa a 65% dos leitores, mas ainda assim não deixarei de escrever. Estou a exercer a minha liberdade de expressão, um direito que, tal como o direito ao voto, só posso gozar por viver numa democracia. Mas sabem quem não o pode exercer? Quem vive em regimes totalitários, que normalmente surgem quando os extremistas, sejam da direita ou da esquerda, chegam ao poder. É por isso que tenho medo do resultado desta eleições europeias, que não interessam a 65% dos portugueses.
    Vivemos na Europa, gostamos da liberdade de circulação que isso nos dá e, sobretudo, dos subsídios que recebemos, mas não queremos saber de quem dá a cara por nós no Parlamento Europeu. Achamos que não faz qualquer diferença, que são todos iguais, que são todos meninos à procura de tachos e a obedecer às ordens das nações mais poderosas. Se calhar é verdade. Mas se calhar não é. E eu não quero ficar de braços cruzados, como 65% dos meus compatriotas, à espera de ver se os deputados da extrema direita que foram eleitos ontem, são iguais aos que lá estavam antes deles.
    A história mostra-nos que é exactamente em épocas de crise que os extremistas ganham força. As pessoas estão cansadas do desemprego e culpam os emigrantes, estão cansadas da falta de civismo e culpam a liberdade. Se calhar têm razão. Um Salazarzito a impor respeito, a vigiar os nossos passos, a calar as nossas vozes e isto andava para a frente. Ou se calhar não.
    Há quem defenda que não votar é uma maneira de mostrar aos políticos que não acreditam neles. Mas acham mesmo que eles vão fazer uma leitura consciente destes resultados eleitorais? Eles, que na campanha para as Europeias só falaram das Legislativas, eles, que em vez de elucidarem os eleitores acerca do que defendem para a Europa só fizeram política rasteira do insulto, eles que nos seus discursos de reação aos resultados dizem ser todos vencedores.
    No último dia de campanha fiz questão de ver todos os noticiários, porque ainda estava indecisa acerca de alguns pontos. De nenhum partido ouvi uma palavra sobre a Europa. O que significa que não estão interessados em defender os nossos interesses lá fora, mas sim em ganhar os seus milhares de euros como europedutados. O importante é porem lá alguém da sua cor, para depois dizerem que os portugueses gostam mais deles do que dos outros. Sim, é frustrante. Mas não votar não vai mudar nada disto.
    Lamento que 65% dos portugueses tenham preferido cruzar os braços, seja por birra, seja por desinteresse. Dos portugueses e dos outros europeus. E lamento ainda mais depois de saber que no Parlamento Europeu, algo que bem ou mal nasceu das cinzas da 2ª Guerra Mundial, se vão sentar  neonazis. Parece que finalmente tenho a resposta para a pergunta que fazia quando aprendia a história do século XX: " Como é que as pessoas deixaram que isto acontecesse?".


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