• Como sobrevivi às campanhas anti-vacinação


    As notícias recentes de novos surtos de sarampo em Portugal e noutros países onde a doença estava quase erradicada não é algo que me surpreenda verdadeiramente. Porquê? Porque também eu, durante a minha primeira gravidez, andei a ler todos os disparates que os gangues anti-vacinas tentam disseminar e, por uns três ou quatro dias, cheguei a achar que tinham razão.

    A primeira coisa que me apraz dizer sobre as teorias do "vacinar é perigoso e um bom sistema imunitário é o suficiente para sobreviver a qualquer doença" é que, à primeira vista, elas são muito apelativas sobretudo para quem, como eu, sonha com um mundo menos tóxico e mais natural. No entanto, bastou-me investigar um bocadinho para perceber que todos os seus argumentos são falsos. Como em tudo na vida, informação é poder.

    Começam por nos tentar convencer que a maioria das doenças contra as quais vacinam os nossos filhos não são graves e que é muito mais perigosos para um bebé estar sujeito a todos os componentes tóxicos das vacinas e respectivos efeitos secundários do que ter a doença em si. Mentira. As doenças que estão contempladas no plano nacional de vacinação podem ter consequências muito graves, tão mais graves quanto menor for a idade da criança e, além disso, os efeitos secundários das vacinas estão mais do que estudados e controlados. Antes de ser vendida uma vacina é sujeita a anos e anos de testes até provar que é segura. Mais, a idade em que são administradas também tem sido alvo de estudos. Daí chamar-se um plano de vacinação. A mim também me fez impressão dar uma vacina aos meus filhos quando eles nem 24 horas de vida tinham. Nomeadamente a vacina da hepatite B, não estando eu num grupo de risco. Mas quando questionei o pediatra de serviço ele respondeu-me que claro que eu podia não dar, desde que conseguisse viver com a decisão caso o bebé, por qualquer razão, viesse um dia a contrair a doença.

    A seguir estas pessoas argumentam que os seus filhos nunca foram vacinados e nunca ficaram doentes. Pois não. Porque as vacinas funcionam quando mais de 90% do grupo está vacinado. Ou seja, os filhos dos fanáticos anti-vacinas só não ficam doentes porque os outros meninos estão vacinados e estas doenças já quase não existem na comunidade. O que, como se está a ver nas notícias, está a deixar de acontecer.

    Depois ainda vêm com a história de que as vacinas são um negócio para enriquecer a indústria farmacêutica e que a maioria delas não serve para nada. Este foi o argumento que mais me abalou na altura, porque também eu não simpatizo com a indústria farmacêutica enquanto negócio milionário e sou adepta (com resultados comprovados) da homeopatia. No entanto, sou também uma crente nos avanços da ciência e dou graças por ter nascido num país onde não tenha de assistir à morte de crianças por doenças como a cóĺera ou a difteria. Além disso, prefiro estar a contribuir para o enriquecimento de algumas pessoas com poucos escrúpulos mas ter os meus filhos vivos e com saúde, do que pôr em risco o seu bem estar em nome de teorias da conspiração. A medicina tradicional e as medicinas alternativas devem ser complementares, e não opostas. Eu gosto muito de tratar constipações e maleitas menores sem recorrer a medicamentos, mas quando falamos de doenças graves ou que põe em risco a saúde pública, tenham paciência. Há uma razão para a mortalidade infantil ter diminuído drasticamente nos últimos trinta anos. Chama-se Evolução da Medicina.

    Por fim, estas pessoas irresponsáveis agarram-se a uma teoria não comprovada que apresenta o autismo como um dos efeitos secundários das vacinas. Esta teoria, que até já teve honras de ser apresentada em programas como a Oprah, é baseada no estudo de um pseudo-investigador em doze crianças. Sim, doze. Estudo esse que tem sido replicado por outros investigadores com resultados diferentes. Estudo esse que, sabe-se agora, foi manipulado. As vacinas não causam autismo. As vacinas previnem doenças e epidemias e atenuam os efeitos dessas mesmas doenças. As vacinas salvam milhões de vidas. É pena que ainda não haja uma vacina que nos salve da estupidez humana.





    3 comentários → Como sobrevivi às campanhas anti-vacinação

    1. Não podia estar mais de acordo, principalmente com a sua última frase 😉 Mas falando mais a sério, também não percebo esta moda anti-vacinas. Não será prova suficiente o facto da mortalidade infantil ter diminuído drasticamente nos últimos anos e termos assistido à erradicação de algumas doenças? Não há nada que me demova de por a saúde e bem estar das minhas filhas em primeiro lugar e acima de qualquer pseudo teoria da conspiração.

    2. :)

    3. Cuidado com a ideia que a homeopatia funciona.

      http://www.smithsonianmag.com/smart-news/1800-studies-later-scientists-conclude-homeopathy-doesnt-work-180954534/

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